Mercado de inovação: o setor está pronto para a igualdade de gênero?

Nos últimos anos, a desigualdade no Brasil impulsionou diversas discussões de cunho sócio-cultural. O mercado de inovação – assim como o mundo corporativo, em geral – não passa despercebido nesses debates.

Claro que muitos desses assuntos merecem atenção entre os vários tipos de desigualdade no Brasil. Mas no empreendedorismo, um dos pontos que nos coloca em alerta é a desigualdade de gênero. A urgência de equilibrar essas disparidades surge, justamente, a partir de números e constatações científicas.

A radiografia de startups feita pela ABStartups em parceria com a Accenture, em 2017, mostrou que as startups brasileiras são predominantemente compostas por homens. Em segundo lugar, ficam os empreendimentos que têm mulheres no time, mas ainda têm presença menos expressiva em relação a eles. Confira:

Diversidade de gênero no ecossistema de inovação brasileiro. 37,7% contam só com homens, 36,66% formadas por mais homens, 15,66% com igualdade de gênero, 7,19% formadas em maioria por mulheres e 3,02% formadas somente por mulheres. Fonte: ABStartups e Accenture.
Descrição da diversidade de gênero de acordo com mapeamento do ecossistema de inovação brasileiro feito pela ABStartups e Accenture, em 2017.

Desigualdade de gênero no mercado de inovação

A Bloomberg, empresa do setor financeiro e agência de notícias em Nova York, trabalha duro no mapeamento da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Desde 2016, eles produzem o Bloomberg Gender-Equality Index (GEI – Índice de Igualdade de Gênero), que em 2018 se abriu para diferentes áreas do mercado.

Os dados coletados pela empresa refletem a desigualdade no Brasil. Em 2016, por exemplo, as mulheres conseguiram 46% das promoções do mundo corporativo dos clientes da Bloomberg. Mesmo assim, em 2018, as funcionárias femininas ocupam apenas 26% das posições de alta liderança e 19% dos cargos executivos. Você pode conferir a lista completa  aqui.

A ISSO! acompanha de perto as mudanças no mercado de trabalho, sejam técnicas ou culturais. Por esse motivo, o hub segue atento aos índices de desigualdade no Brasil, a fim de ser um dos condutores de mudanças que realmente precisam acontecer.

Legaltech brasileira pela igualdade de gênero

Conversamos com Lígia Vasconcelos, fundadora da startup Femijuris. A legaltech – tipo de empresa que usa tecnologia e softwares para inovar no mercado jurídico, tradicionalmente conservador – é responsável por conectar advogadas e orientá-las quanto à situações de abuso moral ou sexual, além de instruir para que essas profissionais atendam de forma cuidadosa outras mulheres que busquem seus serviços.

A fundadora conta que a iniciativa surgiu a partir de uma pesquisa chamada Mulheres no direito: desafios profissionais. “Nessa pesquisa, a gente colheu mais de 200 depoimentos, de voluntárias, de advogadas (…) A gente identificou que o que impacta na satisfação profissional das mulheres dentro do direito é a falta de reconhecimento, a baixa remuneração e a jornada de trabalho [dupla]”, conta.

Os relatos coletados pela Femijuris identificaram alguns outros dados alarmantes. Descobriram que a discriminação de gênero afeta ou afeta muito 49% das respondentes, que o assédio sexual afeta ou afeta muito 41% delas e o assédio moral afeta ou afeta muito 42%.

E como amenizar a desigualdade de gênero?

Fatores como desigualdade salarial ainda assolam as mulheres inseridas no mercado de trabalho brasileiro. O Itaú Unibanco saiu na frente nesse debate ao realizar, em 2018, um estudo interno para analisar as disparidades. A partir daí, identificou-se que as trabalhadoras femininas formam 60% do quadro de coordenadores, mas ganham em média 4% a menos.

Monitorar o que precisa ser feito “dentro de casa”, ou seja, no seu negócio, é fundamental. As mudanças só podem surgir a partir do momento em que se admite existir um problema e quando identificam o quão impactante ele é.

Lígia destaca que, para fazer mudanças que sejam de fato efetivas para a construção de um ambiente profissional saudável, é necessário mudar a cultura da empresa. “A empresa precisa identificar que isso é ruim pra ela também, que é passível de ações de assédio moral e assédio sexual, por exemplo”, explica.

E se você não sabe por onde começar a busca por essas melhorias, a advogada e fundadora da startup dá algumas dicas:

  • Fazer workshops
  • Desenvolver pesquisas de clima
  • Contratar empresas que dão consultoria em relação a produtividade
  • Contratar empresas que fomentem a liderança

Como as profissionais que sofrem podem lidar com a situação?

Em casos nos quais se sente uma abertura maior para diálogo, a advogada diz que a própria funcionária pode levar esse assunto ao setor competente, o RH. “E a empresa precisa entender também que fomentar a diversidade, então fomentar pessoas diferentes, gêneros diferentes, traz ideias diferentes, aumenta a produtividade de toda a equipe”, destaca.

“Se ela tiver bastante coragem e a equipe for aberta a sugestões, [o que aconselho] é conversar com a equipe. Falar que tem acontecido algumas atitudes que a incomodam”, orienta. Ela ainda pontua que é preciso ter cuidado com o uso do termo “machista” e derivados, pois tendem a fechar portas para o diálogo. “A gente aconselha a nunca falar que a pessoa é machista. O ideal é você falar que a atitude foi machista ou de cunho machista, porque isso geralmente abre diálogo. Mas se a pessoa achar que até isso vai fechar diálogo, pode falar que tal e tal situação me incomodaram e eu não gostaria que isso se repetisse”, comenta.

Fica clara a urgência de tratar o tema da desigualdade de gênero não só em ambientes sociais, mas em todo o empreendedorismo também. Além da necessidade de fomentar o crescimento de diferentes tipos de profissionais, uma vez que a empresa só tem a ganhar com isso.

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